sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Sai em busca da beleza. Encontrei-a em Rubem Alves.

Há dias em que você acorda com ânsia de beleza.
Não estou aqui falando de coisas externas, roupas, maquiagens. Estou falando de beleza interna, daquilo que toca, mexe com o coração. E fiquei me perguntando onde eu iria buscá-las, porque não conseguia encontrar nada por onde olhava. Daí me veio o rumo de encontrar a beleza na forma como alguém me ensinou a olhar o mundo. E por isso resolvi mergulhar nas minhas memórias afetivas do Rubem Alves.

Foi ele quem me mostrou a beleza de uma carta.
Um mero papel cheio de linhas onde são sobrepostas letras e palavras, escritas pela mão de alguém que deseja mandar notícias suas a outra pessoa. Mas essa carta não era uma carta qualquer. Essa carta falava de amor. Era uma carta entre enamorados, entre pessoas que estavam distantes, afastadas pelos quilômetros, mas desejosas de se verem, de se tocarem, de se perceberem. E esse pequeno pedaço de papel, que antes passava tão despercebido, de repente tomou mais do que sentido quando descobri que ao escrevê-la para alguém, esse alguém poderia me tocar ao pegar o papel, em que eu havia tocado. Afinal, segundo Rubem Alves, cartas de amor são para isso: para que as mãos, mesmo distantes, possam tocar-se ao tocar no papel.

Também foi ele que mostrou o desafio de amar.
Sim, amar num relacionamento a dois. Foi ele que me fez refletir que um namoro ou casamento é um grande jogo onde, ou os dois ganham, ou um perde. E fiquei pensando que tipo de relacionamento eu queria pra mim, um tipo tênis ou tipo frescobol. E descobri que o que eu quero mesmo é jogar frescobol a vida toda com alguém. Eu sacando de cá, ele amortecendo e devolvendo de lá, e nós dois preocupados em não "deixar a bola cair nunca", para que essa deliciosa brincadeira jamais tenha fim. Descobri que tênis só gosto nas quadras e como esporte, não como relacionamento. Porque não quero nunca estar ao lado de alguém e viver a dar raquetadas, a conseguir diversos "aces" (jogada sem defesa para o outro tenista) para destruí-lo, derrotá-lo. Não. Quero passar o tempo que eu tiver junto com esse alguém numa permanente brincadeira onde, quando ele mandar a bola meio torta eu possa fazer tudo para ampará-la e devolvê-la macia, equilibrada e, vice versa. E que quando a bola vier de forma mais intensa e cair, ambos corram atrás dela para levantá-la e novamente colocá-la em jogo.

Rubem Alves me ensinou também a admirar o estouro de um milho de pipoca. 
Amarelinho, duro que só "a gota serena", mirradinho. O milho vai pro fogo no óleo quente. Panela é fechada. Sensação de abafamento. Embaixo o fogo, em cima o abafado, a fumaça cobrindo-o. O milho vai morrer. De repente, sem que ele perceba, explode!! Acabou, tudo acabou... Mas, que surpresa! Ele não se desintegra. Ele se transforma. Vira algo branco, macio, de textura diferente, agradável. Que coisa!? O milho duro e sem gosto se transformou numa deliciosa e fofa pipoca. A transformação que todos nós, seres humanos, precismos passar pela vida para deixarmos de sermos duros, intransigentes, sem graça, para virarmos aquilo que temos que ser: amáveis, ternos, doces, amoráveis. O milho não é o que temos que ser. A pipoca é o que tem que ser. E nunca mais eu fiz pipoca do mesmo jeito que antes ...

Ah, também aprendi a olhar um retrato (porque sou do tempo do retrato), não apenas como uma fotografia.
O retrato é a captação de um momento especial, único, onde ali está o local, a pessoa, o sentimento que aquele dia, aquela hora, eu queria deixar eterno. Ali está tudo o que eu desejava que estivesse. Aquele momento "congelado" é eterno, sempre memorável, intocável. E quando esse momento é de alguém que se ama, ele se torna ainda mais mágico, por isso eu o retrato!! Eu o torno imortal no congelamento daquela imagem. Olho para a fotografia e tenho saudades do que vejo, de quem vejo. Tenho saudades de quem que está ali. Do sentimento bom que ela me trouxe naquele momento e hora. Da felicidade que eu senti ao estar com aquela pessoa. Sinto saudades de mim na foto. Daí em diante, uma foto deixou de ser uma fotografia para ser, de fato, um retrato.

E com Rubem Alves também aprendi que nunca se deve deixar quem se ama preso numa gaiola dourada.
Não. Aquilo que se ama tem que ser liberto, tem que ter vida, asas, caminho próprio. Não se pode querer prender um pássaro acostumado com a liberdade na gaiola, simplesmente porque você tem medo que ele não volte pra você. Não é gaiola que vai fazê-lo ficar e lhe amar. É o desejo que você construir nele de querer estar de volta para lhe contar as belas histórias dos caminhos por onde andou, das paisagens que viu, das cores que percebeu, dos perigos que passou. Ele tem que desejar poder estar com você novamente. Ele volta porque sente prazer em ver, quando narra as peripécias, os seus olhos brilharem, o sorriso brotar no seu rosto, a atenção que dedicas a ele naquele momento em que "o mundo parece parar para ouvir quem se ama". Sim, as gaiolas são ilusões humanas de que se conquista o amor com prisão. O amor só se conquista com liberdade, com o encantamento do pássaro.

E depois que li Rubem Alves nunca mais uma árvore foi apenas uma árvore; uma flor não foi mais uma flor; um pé de jabuticaba, deixou de ser apenas um fazedor de jabuticaba; um por do sol deixou de ser apenas um "apagar de luzes". Tudo isso, que já me encantava e enchia de paz, passou a ser um presente diário da vida à mim mesma. Pequenos momentos de beleza que colorem, alegram, aliviam, acalentam o que sou e o que quero vir a ser. O mundo passou a ter mais cores e eu passei a agradecer a todos os pintores, que diariamente o colorem, pela dádiva de poder ver o que eles fazem.

Enfim, mesmo em dias nublados ou cinzentos, aprendi a agradecer por viver.
Isso, Rubem Alves me ajudou a ver.

domingo, 24 de agosto de 2014

O Universo

Quando mergulho no Universo 
contemplo a beleza em si.
Observo tudo a existir,
vejo a vida pulsar.

No universo de fora
as estrelas cintilam,
as flores desabrocham,
a vida surge nos menores detalhes.

No universo de dentro
nem sempre há sol a contento.
As vezes só há brumas e cinzento.
Só há um céu sem sorrir.

Mas se o sol ai voltar a brilhar
não há quem possa segurar.
Não há quem possa medir
o tamanho do universo a existir.

*Texto escrito em 22.08.14 durante o Festival A Letra e a Voz.

sábado, 23 de agosto de 2014

Vivo!

Vivo a vida, vivo a alegria. 
Vivo a vida, isso sim é euforia!
Estou vivo, sim, respiro e penso.
Sou espírito eterno, sou vivente.

Quem pensou que o túmulo seria meu fim.
Digo que se enganou.
O túmulo pra mim foi o início,
de um novo caso de amor.

Amor com a vida e a alegria.
Amor com o dia e suas agonias.
Foi passar a viver tudo, enfim.
Foi simplesmente descobrir que vivi.

*Texto escrito no dia 20 de agosto, no Festival A Letra e a Voz

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Como não amar?!

Amor, paixão, que tortura! 
Queria deles fugir.
Queria não ter que senti-los.
Que desassossego pro meu espírito!

Mas, o que é o ser se não amar?
O que é o ser se não se apaixonar?
Como andar pela vida sem sentir,
se tudo o que desejo é existir?!

Sem o amor não haveriam os poetas.
Sem a paixão não haveriam os romances.
Sem o choro e o lamento não haveriam os autores.
E por isso amo, apesar dos tormentos.

Como não amar?
Como não sorrir?
Como não se sofrer?
Se é isso que me faz existir?!

*Texto escrito no dia 20.08.2014, durante o Festival A Letra e a Voz.

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Se você não cuidar do seu jardim, ele morre...

Rapaz, tomei um susto essa semana.
Cheguei na varanda de casa e fui olhar algumas plantas que insisto em ter. Sim, o objetivo é deixar o apartamento mais "humano". E dei de cara com uma cena curiosa: num é que eu quase consegui "matar" um pé de "comigo ninguém pode"?!!

Gente!!!!
Isso é o que eu chamo de um feito e tanto, pois pense numa danada de planta resistente pra caramba?!! Não é a toa que dizem que ela é boa para absorver energias negativas da casa. Mas, o fato, é que eu quase matei a dita cuja.

Olhando os outros três vasos vi que a situação das demais, se não tão drástica, era periclitante. Imediatamente me pus a postos para tentar "salvar as bichinhas": comprei húmus para colocar na terra. dei uma poda em umas folhas já mortas ou a meio caminho disso, coloquei água e comecei a bater um papo com elas (fazia tempo que eu não conversava com as minhas plantinhas). O aspecto geral delas já deu uma melhorada, mas ainda vai levar uns dias para elas voltarem a ficar "viçosas".

E nessa terapia das plantas, me peguei na reflexão da vida.
E mais uma vez vi o quanto somos, literalmente, parte integrante do sistema bio-sócio-ambiental deste ser chamado Terra. Porque o que aconteceu com as minhas plantinhas é muito, mas muito similar ao que acontece conosco, seres humanos, quando "deixamos de nos cuidar". Sim, porque a falta de trato, de água, de cuidados é o que fez meu pobre pé de "comigo ninguém pode" praticamente perecer. E quantos de nós não "perecemos em vida" da mesma forma, pela simples ausência de "trato".

É bom esclarecer logo que não estou aqui falando de "cuidar do exterior" ou de "vaidade extrema", apenas. Falo do cuidado necessário que cada um de nós deve ter por si para que se mantenha viçoso, alegre, vivo, forte, feliz. Falo dos cuidados com o nosso EU interno, aquilo que somos ou carregamos no íntimo, no coração.

Assim como abandonamos as plantas do nosso jardim, em algumas ocasiões da vida nós fazemos o mesmo com o "nosso jardim interno". Deixamos que nele falte o sol da esperança que aquece o coração; a água da esperança que molha o solo interior; esquecemos de colocar o adubo da autoestima diariamente para manter a terra rica de proteínas importantes para que nossa "planta interna" possa ir crescendo bonita, forte; e de, vez por outra, dar uma podada nas ervas daninhas que podem sufocar o desabrochar da semente.

Quando isso acontece, não tem pra onde: é problema na certa!!!
Uma plantação interior que não é cuidada com amor e carinho pode se transformar num árido solo, seco, esturricado, sem vida, ou seja, sem amor nenhum por si e pelo que lhe cerca. Em outros casos, as ervas daninhas da culpa ou o matagal do remorso crescem tomando conta de todo o terreno. E ai, quando olharmos para ele o veremos todo "morto ou tomado pelo descaso" e a tendência natural é a de ficarmos tristes, deprimidos e, normalmente, nos acomodarmos na assertiva: agora não tem mais jeito, está tudo perdido, não tenho como mudar isso!

Mas, o bom jardineiro sabe que, por detrás de um terreno espinhoso, seco e aparentemente sem jeito, sempre há a possibilidade de surgir um belo jardim. Claro, isso vai custar a ele tempo, determinação, paciência e confiança de que pode transformar aquele lugar aparentemente árido e sem cor num recanto colorido, perfumado e bonito. E se ele quer que o negócio aconteça mesmo, o grande lance será "começar já a botar a mão na massa"!!!

E pra iniciar ele vai ter que ir retirando o mato, as plantas espinhosas, o que não presta, para poder ter uma ideia real do terreno. Afinal, ele quer um jardim com outras flores e plantas e aquelas que ele encontrou ali não combinam com o seu planejamento do ambiente. No nosso caso isso significa que teremos que mergulhar em nós e sair catando o lixo que está acumulado no nosso Eu para jogá-lo fora. Algumas dessas "plantas daninhas" são: desamor, baixa autoestima, mania de "vitimose", culpa, medo, orgulhos. 

Podar algumas plantas que antes vicejavam e agora estão praticamente "mortas" também é preciso. Então é tirar da árvore da esperança os galhos mortos da desesperança; da trepadeira da fé a descrença. Daí colocamos o adubo da oração, o húmus da confiança, a água da humildade e, claro, não podemos esquecer de deixar o sol da serenidade e a brisa da paciência bater no nosso jardim para que possa, aos poucos, ir ressurgindo novamente em cores.

E depois de tudo isso, voltando a cuidar diariamente desse espaço tão bonito e tão importante que é você mesmo, verás que belezura de campos verdejantes e multicor vão surgir de onde nem imaginavas!!! É quando o jardim está belo que voltam a aparecer as borboletas, os beija-flores, os sabiás, os bem-te-vis, e as abelhas. Afinal, eles só se aproximam do que é belo para eles, das plantas que exalam um odor agradável, saudável.

Eis a surpresa da vida. De onde menos se espera, surge beleza. 
Não é a toa que a melhor simbologia para isso que digo é a do lírio que brota mesmo estando no meio do lodo. Assim é o nosso Ser Divino: basta que a gente queira para que ele volte a exalar a beleza com que foi criado. 

E se você é daqueles que anda "esquecido do seu jardim", aproveita esse início de semana para começar a cuidar dele. Ainda dá tempo de fazer ele florir!

Boa semana.

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

E a morte nos faz refletir ...

Nada como a morte para nos lembrar da fragilidade da vida.
Tantos orgulhos, tantas ambições, tantas vaidades, tantos melindres.
Para que tudo isso?
Para um túmulo.

E é diante da finitude da vida, que não tem dia, hora ou prazo para chegar, que nos perguntamos: o que estamos fazendo da nossa vida? Para onde estamos indo? Será que o rumo que tomamos é o correto?

A morte em si não me assusta, mas sim o que ela representa.
As vezes a separação física de alguém a quem amamos; em outras o interromper de sonhos; em outros momentos o desafio de encarar a si mesmo, seus equívocos.

Mas em outras vezes a morte nos fala de amor.
Nos lembra de como perdemos tempo não amando, não estando junto de quem se gosta, preocupados com coisas fúteis quando o importante mesmo está ao nosso lado, ali, bem perto.

As mortes desse 13 de agosto de 2014 me fizeram refletir.
Fizeram despertar em mim certezas, saudades, lamento, desejos, vontades.
Parece que uma represa de sentimentos ruiu, rachou, e agora eles lançam-se todos na corredeira da vida me mostrando verdades, caminhos, situações.

Quanto tempo perdemos com sentimentos de medo, culpa, desamor.
Tempo precioso de estar com quem se ama, construindo no dia a dia uma convivência.
Compartilhando experiências, confidências, medos. 
Um olhar, um tocar de mãos, um sorriso cúmplice. 

Amar o outro na sua diversidade, diferença, igualdades, convergências.
Isso pra mim é amar.

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Quando ...

Quando a dor mais profunda tomar tua alma.
Quando te sentires sem esperança em tua caminhada,
não esqueces nunca de que não estás sós.
Te lembras do amor que te deu a vida.
Da energia que tudo ama e harmoniza
Te lembra de Deus em ti.

Quando a noite se fizer mais escura,
quando a vida te parecer mais dura
e teu caminhar te pesar.
Lembra sempre que o fardo é leve
para quem com Ele anda
e que por mais que te canses, Ele ali está pra te apoiar.

Quando o medo e a solidão te ferirem de forma atroz.
Quando na vida não esperares nada mais do que a dor,
e teu coração pensar em desistir.
Te consola na fé e andas uma milha a mais.
Não esqueces de insistir um pouco mais
E verás a aflição se dirimir.

Sim, sei que há noites bem escuras
algumas que são bem duras
mas outras hão de vir.
E nessas novas noites a luz voltará a brilhar,
a vida voltará a pulsar,
e tu voltarás a sorrir.

Não desiste agora,
espera um pouco mais. 
Tem força, fé e esperança,
que o resto, Deus faz.
E depois de passada a tempestade
verás a beleza do céu estrelado,
verás o clarão da lua iluminando novamente o teu caminho.
E chorarás de feliz.