quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Vendo a chuva com os olhos de Kayden


"Mas Jesus chamou a si as crianças e disse: "Deixem vir a mim as crianças e não as impeçam; pois o Reino de Deus pertence aos que são semelhantes a elas. Digo a verdade: Quem não receber o Reino de Deus como uma criança, nunca entrará nele". 
(Lucas, 18:16-17)

Estou desde cedo com essa passagem do Cristo na cabeça. Mais especificamente, depois que tive a curiosidade de abrir o link do vídeo da pequena Kayden, de apenas 15 meses de vida. A pequena oriental simplesmente se delicia, encantada, com a primeira chuva que ela consegue "perceber de fato" em seu pouco tempo de vida. A alegria dela é contagiante, linda, pura. Deslumbrada com a água que cai ela brinca, se deixa molhar, sorrir, grita e mesmo sendo puxada pra dentro de casa insiste em retornar para o que está lhe dando prazer: a chuva.

Eu fiquei tão encantada com ela que, na mesma hora, a passagem bíblica me veio à mente. E me peguei pensando: porque perdemos com o passar do tempo essa alegria de se encantar com as pequenas e simples coisas da vida?

Quantas coisas lindas e gratuitas podem fazer o nosso dia mais feliz?! Uma flor que abre no nosso jardim, o amanhecer, a beleza do céu azul, as nuvens de um dia cinza, o sol que se põe no horizonte num fim de tarde, o anoitecer, as estrelas, a lua, a beleza do mar, um abraço de um amigo querido, o sorriso de alguém que lhe cumprimenta na rua. Tudo isso pode ser um pequeno motivo de alegria na nossa vida.

Muitos não entendem o recado que Jesus deu aos seus apóstolos naquele dia. 
Acham que ser criança é não ter responsabilidades, ser infantil estando adulto, é "viver de birra" com a vida quando ela não quer lhe dar alguma coisa, como criança faz. Mas, o recado não era esse.

Entendo que quando o Mestre diz, "pois o Reino de Deus pertence aos que são semelhantes a ela" Ele nos convida a resgatar em nós a simplicidade do ser. O prazer de gostar das pequenas coisas, de ser mais otimista e confiante no outro, de acreditar na bondade das pessoas, na capacidade que todos possuímos de mudar, de ser e fazer diferente na vida. 

A criança não escolhe outra criança pra brincar porque ela tem um carrinho bonito ou uma bela boneca. Ela quer um companheiro ou companheira que divida, naquele momento, as travessuras, as diabrites, os sonhos, o sorriso, a alegria de se divertir. Pode ser branca, amarela, negra, não importa a cor. Naquele momento mágico, o outro ou outra é meu amigo e minha amiga. 

A criança se permite rir de forma muito gostosa por qualquer coisa. Há coisa mais deliciosa do que a gargalhada de um bebê?! Do nada, de um simples gesto que você faz, o mundo dela se transforma, ganha cor e brilho, som e volume, numa deliciosa e "banguela" risada. Para a criança um simples pedaço de areia, com um pequeno balde, onde ela possa se lambuzar, rolar, mexer, é o suficiente para ela ganhar o dia. 

Uma outra característica linda da criança é a confiança. Ela confia nos adultos que a cercam, se coloca disponível para o carinho, se joga nos braços de quem gosta.

Mas, com o passar do tempo, ela vai sendo estimulada a perder isso, essa espontaneidade. 

Passa a ser treinada para dar valor a quem tem algo a lhe oferecer em troca. É condicionada a achar que valores materiais, equipamentos, carros, roupas são muito mais importantes do que o convívio com o outro. Vivem esquecidas em suas "gaiolas de luxo", em belos apartamentos montados pelos pais ausentes, vazias de afeto e de amor, e passam a suprir suas carências na revolta, nas drogas, no álcool, no sexo, no isolamento de uma tela do Iphone ou do tablet.

E quando se torna um adulto desconfia de tudo e de todos. Suas amizades e relações são pautadas na máxima "o que ganho com essa amizade?", "o que ele tem pra me dar em troca"? Passamos a dar valor a coisas como luxo, riqueza, ambição. A vaidade do que "achamos que somos" passa a ser a nossa grande companheira e o orgulho nos faz nos supor muito maior do que verdadeiramente somos. Os valores de casta passam a ser mais importantes do que o valor moral das pessoas. 

No campo do afeto nós passamos a construir nossas relações no medo de tocar no outro, de chegar junto, de ser verdadeiro no gostar. Ficamos nos escondendo atrás de máscaras de indiferença, de "gente descolada", de "mulheres independentes", de "homens garanhões" para não reconhecer o que todo mundo precisa: de carinho, amor e afeto verdadeiro. Porque reconhecer isso significa demonstrar a nós mesmos e ao mundo a nossa fragilidade, nossa carência nessa área. E o medo de nos ferir, de demonstrar nossa falibilidade, ah, isso nos amedronta!

E com isso, ao longo do tempo, secamos, vamos perdendo a simplicidade, a alegria que nos faz iguais às crianças. 

A pequena Kayden hoje me fez pensar que nos falta sentir mais com o coração e deixar de raciocinar tanto. Queremos entender o simples com a mente, porém só sentindo é que vamos encontrá-lo.

E já que hoje está chovendo aqui em Olinda, nada melhor do que olhar a chuva com outros olhos, com os olhos de Kayden...


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