domingo, 24 de agosto de 2014

O Universo

Quando mergulho no Universo 
contemplo a beleza em si.
Observo tudo a existir,
vejo a vida pulsar.

No universo de fora
as estrelas cintilam,
as flores desabrocham,
a vida surge nos menores detalhes.

No universo de dentro
nem sempre há sol a contento.
As vezes só há brumas e cinzento.
Só há um céu sem sorrir.

Mas se o sol ai voltar a brilhar
não há quem possa segurar.
Não há quem possa medir
o tamanho do universo a existir.

*Texto escrito em 22.08.14 durante o Festival A Letra e a Voz.

sábado, 23 de agosto de 2014

Vivo!

Vivo a vida, vivo a alegria. 
Vivo a vida, isso sim é euforia!
Estou vivo, sim, respiro e penso.
Sou espírito eterno, sou vivente.

Quem pensou que o túmulo seria meu fim.
Digo que se enganou.
O túmulo pra mim foi o início,
de um novo caso de amor.

Amor com a vida e a alegria.
Amor com o dia e suas agonias.
Foi passar a viver tudo, enfim.
Foi simplesmente descobrir que vivi.

*Texto escrito no dia 20 de agosto, no Festival A Letra e a Voz

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Como não amar?!

Amor, paixão, que tortura! 
Queria deles fugir.
Queria não ter que senti-los.
Que desassossego pro meu espírito!

Mas, o que é o ser se não amar?
O que é o ser se não se apaixonar?
Como andar pela vida sem sentir,
se tudo o que desejo é existir?!

Sem o amor não haveriam os poetas.
Sem a paixão não haveriam os romances.
Sem o choro e o lamento não haveriam os autores.
E por isso amo, apesar dos tormentos.

Como não amar?
Como não sorrir?
Como não se sofrer?
Se é isso que me faz existir?!

*Texto escrito no dia 20.08.2014, durante o Festival A Letra e a Voz.

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Se você não cuidar do seu jardim, ele morre...

Rapaz, tomei um susto essa semana.
Cheguei na varanda de casa e fui olhar algumas plantas que insisto em ter. Sim, o objetivo é deixar o apartamento mais "humano". E dei de cara com uma cena curiosa: num é que eu quase consegui "matar" um pé de "comigo ninguém pode"?!!

Gente!!!!
Isso é o que eu chamo de um feito e tanto, pois pense numa danada de planta resistente pra caramba?!! Não é a toa que dizem que ela é boa para absorver energias negativas da casa. Mas, o fato, é que eu quase matei a dita cuja.

Olhando os outros três vasos vi que a situação das demais, se não tão drástica, era periclitante. Imediatamente me pus a postos para tentar "salvar as bichinhas": comprei húmus para colocar na terra. dei uma poda em umas folhas já mortas ou a meio caminho disso, coloquei água e comecei a bater um papo com elas (fazia tempo que eu não conversava com as minhas plantinhas). O aspecto geral delas já deu uma melhorada, mas ainda vai levar uns dias para elas voltarem a ficar "viçosas".

E nessa terapia das plantas, me peguei na reflexão da vida.
E mais uma vez vi o quanto somos, literalmente, parte integrante do sistema bio-sócio-ambiental deste ser chamado Terra. Porque o que aconteceu com as minhas plantinhas é muito, mas muito similar ao que acontece conosco, seres humanos, quando "deixamos de nos cuidar". Sim, porque a falta de trato, de água, de cuidados é o que fez meu pobre pé de "comigo ninguém pode" praticamente perecer. E quantos de nós não "perecemos em vida" da mesma forma, pela simples ausência de "trato".

É bom esclarecer logo que não estou aqui falando de "cuidar do exterior" ou de "vaidade extrema", apenas. Falo do cuidado necessário que cada um de nós deve ter por si para que se mantenha viçoso, alegre, vivo, forte, feliz. Falo dos cuidados com o nosso EU interno, aquilo que somos ou carregamos no íntimo, no coração.

Assim como abandonamos as plantas do nosso jardim, em algumas ocasiões da vida nós fazemos o mesmo com o "nosso jardim interno". Deixamos que nele falte o sol da esperança que aquece o coração; a água da esperança que molha o solo interior; esquecemos de colocar o adubo da autoestima diariamente para manter a terra rica de proteínas importantes para que nossa "planta interna" possa ir crescendo bonita, forte; e de, vez por outra, dar uma podada nas ervas daninhas que podem sufocar o desabrochar da semente.

Quando isso acontece, não tem pra onde: é problema na certa!!!
Uma plantação interior que não é cuidada com amor e carinho pode se transformar num árido solo, seco, esturricado, sem vida, ou seja, sem amor nenhum por si e pelo que lhe cerca. Em outros casos, as ervas daninhas da culpa ou o matagal do remorso crescem tomando conta de todo o terreno. E ai, quando olharmos para ele o veremos todo "morto ou tomado pelo descaso" e a tendência natural é a de ficarmos tristes, deprimidos e, normalmente, nos acomodarmos na assertiva: agora não tem mais jeito, está tudo perdido, não tenho como mudar isso!

Mas, o bom jardineiro sabe que, por detrás de um terreno espinhoso, seco e aparentemente sem jeito, sempre há a possibilidade de surgir um belo jardim. Claro, isso vai custar a ele tempo, determinação, paciência e confiança de que pode transformar aquele lugar aparentemente árido e sem cor num recanto colorido, perfumado e bonito. E se ele quer que o negócio aconteça mesmo, o grande lance será "começar já a botar a mão na massa"!!!

E pra iniciar ele vai ter que ir retirando o mato, as plantas espinhosas, o que não presta, para poder ter uma ideia real do terreno. Afinal, ele quer um jardim com outras flores e plantas e aquelas que ele encontrou ali não combinam com o seu planejamento do ambiente. No nosso caso isso significa que teremos que mergulhar em nós e sair catando o lixo que está acumulado no nosso Eu para jogá-lo fora. Algumas dessas "plantas daninhas" são: desamor, baixa autoestima, mania de "vitimose", culpa, medo, orgulhos. 

Podar algumas plantas que antes vicejavam e agora estão praticamente "mortas" também é preciso. Então é tirar da árvore da esperança os galhos mortos da desesperança; da trepadeira da fé a descrença. Daí colocamos o adubo da oração, o húmus da confiança, a água da humildade e, claro, não podemos esquecer de deixar o sol da serenidade e a brisa da paciência bater no nosso jardim para que possa, aos poucos, ir ressurgindo novamente em cores.

E depois de tudo isso, voltando a cuidar diariamente desse espaço tão bonito e tão importante que é você mesmo, verás que belezura de campos verdejantes e multicor vão surgir de onde nem imaginavas!!! É quando o jardim está belo que voltam a aparecer as borboletas, os beija-flores, os sabiás, os bem-te-vis, e as abelhas. Afinal, eles só se aproximam do que é belo para eles, das plantas que exalam um odor agradável, saudável.

Eis a surpresa da vida. De onde menos se espera, surge beleza. 
Não é a toa que a melhor simbologia para isso que digo é a do lírio que brota mesmo estando no meio do lodo. Assim é o nosso Ser Divino: basta que a gente queira para que ele volte a exalar a beleza com que foi criado. 

E se você é daqueles que anda "esquecido do seu jardim", aproveita esse início de semana para começar a cuidar dele. Ainda dá tempo de fazer ele florir!

Boa semana.

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

E a morte nos faz refletir ...

Nada como a morte para nos lembrar da fragilidade da vida.
Tantos orgulhos, tantas ambições, tantas vaidades, tantos melindres.
Para que tudo isso?
Para um túmulo.

E é diante da finitude da vida, que não tem dia, hora ou prazo para chegar, que nos perguntamos: o que estamos fazendo da nossa vida? Para onde estamos indo? Será que o rumo que tomamos é o correto?

A morte em si não me assusta, mas sim o que ela representa.
As vezes a separação física de alguém a quem amamos; em outras o interromper de sonhos; em outros momentos o desafio de encarar a si mesmo, seus equívocos.

Mas em outras vezes a morte nos fala de amor.
Nos lembra de como perdemos tempo não amando, não estando junto de quem se gosta, preocupados com coisas fúteis quando o importante mesmo está ao nosso lado, ali, bem perto.

As mortes desse 13 de agosto de 2014 me fizeram refletir.
Fizeram despertar em mim certezas, saudades, lamento, desejos, vontades.
Parece que uma represa de sentimentos ruiu, rachou, e agora eles lançam-se todos na corredeira da vida me mostrando verdades, caminhos, situações.

Quanto tempo perdemos com sentimentos de medo, culpa, desamor.
Tempo precioso de estar com quem se ama, construindo no dia a dia uma convivência.
Compartilhando experiências, confidências, medos. 
Um olhar, um tocar de mãos, um sorriso cúmplice. 

Amar o outro na sua diversidade, diferença, igualdades, convergências.
Isso pra mim é amar.

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Quando ...

Quando a dor mais profunda tomar tua alma.
Quando te sentires sem esperança em tua caminhada,
não esqueces nunca de que não estás sós.
Te lembras do amor que te deu a vida.
Da energia que tudo ama e harmoniza
Te lembra de Deus em ti.

Quando a noite se fizer mais escura,
quando a vida te parecer mais dura
e teu caminhar te pesar.
Lembra sempre que o fardo é leve
para quem com Ele anda
e que por mais que te canses, Ele ali está pra te apoiar.

Quando o medo e a solidão te ferirem de forma atroz.
Quando na vida não esperares nada mais do que a dor,
e teu coração pensar em desistir.
Te consola na fé e andas uma milha a mais.
Não esqueces de insistir um pouco mais
E verás a aflição se dirimir.

Sim, sei que há noites bem escuras
algumas que são bem duras
mas outras hão de vir.
E nessas novas noites a luz voltará a brilhar,
a vida voltará a pulsar,
e tu voltarás a sorrir.

Não desiste agora,
espera um pouco mais. 
Tem força, fé e esperança,
que o resto, Deus faz.
E depois de passada a tempestade
verás a beleza do céu estrelado,
verás o clarão da lua iluminando novamente o teu caminho.
E chorarás de feliz.

sexta-feira, 25 de julho de 2014

As lágrimas. Ah, as lágrimas ...

Há momentos em que só elas nos ajudam. 
Chegam as vezes mansas, outras de forma transbordante.
Descarregam o que vai na alma e aliviam.
Elas são as lágrimas.

Há momento da vida em que só elas podem nos dar alívio.
Sim, pequenas gotículas de água que vertem dos nossos olhos.
Ah, quão abençoadas são quando vem em abundância.
Quanta serenidade nos dão.

Lágrimas.
Gosto desse nome.
Acho-o doce, confortante.
Assim como elas são.

As lágrimas existem para acusar um fim.
Elas também podem significar um começo.
Elas podem até significar um grande apreço.
Mas no fim, elas são apenas lágrimas que vertem de mim.

Curtindo a chuva ...

Como é bom sentir a chuva.
Senti-la cair no rosto, tocar o corpo, lavar a alma.
Como é bom ouvir o barulho da água ao encontro do solo, dos telhados.
Como é bom simplesmente vê-la.

Chuva é algo mágico.
Tem cheiro de terra molhada.
Tem barulho que, as vezes, parece de lata.
Tem frescor e brisa.

Começar o dia com seu som aos ouvidos é música pura.
A quanto tempo não tomo um bom banho de chuva?
Nem me lembro mais.
Acho que está na hora de relembrar.

Aos poucos o som da chuva vai silenciando.
Um pássaro avisa que já é hora de voar de novo.
E o dia começa calmo e molhado.
Sim, é dia de viver novamente.

quarta-feira, 23 de julho de 2014

Para morrer, basta estar vivo ...

Hoje eu estava pensando na morte.
Não falo daqueles dois tipos de morte que a gente mais conhece, as chamadas mortes "morrida" e "matada". A primeira é quando a gente morre de uma doença, pelo efeito inexorável do tempo em nosso corpo. A morte matada é quando a gente morre devido a um agente externo, um acidente, um tiro, um desastre.
Não é sobre essas mortes que eu refletia.

Eu refletia sobre dois tipos de "mortes" que, apesar de terem nomes iguais e simbologias similares, tem resultados distintos. Na verdade meu pensamento navega pelos óbitos que "fazem morrer" e que "fazem nascer". Calma, que vou explicar.

Essas mortes das quais falo se dão quando estamos em vida ou "dentro do nosso corpo de carne". E possuem características particulares que podem, ao final do processo, decretar que a pessoa "vire um defunto em vida" ou "se transforme numa borboleta que sai do casulo".

Vamos falar, inicialmente, da morte que mata.
Essa acontece quando perdemos o "prazer de viver". A existência passa a ser apenas um cumprir de agenda, um acordar, trabalhar, dormir, ininterrupto. Vivemos como autômatos, robôs condicionados, e nem percebemos. Essa morte se dá quando, diante um choque emocional, algo que nos agride imensamente, ou diante de uma perda que consideramos muito dolorosa, a gente nega o que sentiu e "engole" o sentimento ou a emoção. Esse "Eu" machucado, adoecido, magoado, sofrido, não quer se mostrar. Não pode se mostrar pra si ou para o mundo porque a dor dele é muito grande, quase insuportável. Uma dor de quase morte. E, para poder sobreviver, esse Eu se esconde em algum lugar dentro de si mesmo, de preferência num lugar bem escuro, a prova de som, de cheiro. E fica lá.

Só que esse Eu escondido é um ser com vida. E para que ele se sinta vivo, precisa de ar, de sol, de água, de alegria, de céu azul. E por não ter nada disso, já que está preso, ele começa a apodrecer. Nada enclausurado pode ficar saudável, não tem como. Ele precisa sair, ele precisa de ar para não fenecer. Ele precisa ser "redescoberto", revisitado, liberto, por quem o aprisionou.

Enquanto isso o dono do sentimento ou emoção, que está preso e apodrecendo, continua vivendo do lado de fora. Aparentemente bem, tocando a vida. Mas, o "lixo escondido" que está a se deteriorar devido a ação do tempo começa a exalar odores e chorume (que é o líquido que se solta do lixo acumulado, altamente tóxico. Quem já visitou um lixão sabe do que estou falando), corroendo aos poucos o mundo interno da pessoa. Inicialmente é uma irritação contínua aqui, ali uma mudança no padrão do comportamento, ela passa a sorrir menos, a se tornar mais exigente consigo e com o mundo, mais crítica em relação a tudo que a cerca, imensamente defensiva, deixa de ter prazer em se olhar no espelho, não cuida mais de si. Começa a adoecer fisicamente e os remédios não resolvem o problema. Passa a viver o dia de hoje igual ao dia de ontem, que será igual ao dia de amanhã. Ela vai enferrujando as engrenagens por dentro, azedando. E não percebe que isso é um tipo de "morte". De morte em vida, o que é pior!

E muito anos assim podem transcorrer com a pessoa carregando dentro de si sentimentos de desamor, culpa, remorsos, tudo porque não teve a coragem de "olhar para aquele sentimento ou emoção" que a machucou e assumi-lo, tratá-lo, reconhecê-lo, acolhê-lo com carinho e ressignificá-lo. Porque toda situação, todo sentimento e emoção, é um caminho de autoconhecimento, de reconstrução de posturas e atitudes, de aprimoramento íntimo. E enquanto isso não for "visto" e tratado, a pessoa continuará a morrer aos poucos até que, por um enfarto, um aneurisma, um derrame, causado pela pressão interna que a incomoda, ela "realmente" morra segundo a significação física para isso. Aqui a "morte" foi consumada.

O outro tipo de morte a que me referi no início do texto consiste na morte do Eu. E falo aqui desse Eu ilusório que edificamos ao longo dos anos, do cair das máscaras que somos obrigados a usar em vida para sermos aceitos em sociedade. Algumas delas são inconscientes, fizeram parte das experiências que a criança e o jovem que fomos tiveram e que precisaram ser construídas, também, por uma questão de sobrevivência. Outras são colocadas para esconder as nossas inseguranças, temores, baixa autoestima. Também usadas como armas de defesa são sustentadas o tempo que for preciso, as vezes, uma vida inteira, para que possamos nos sentir alguém, para que possamos nos dar o valor que não nos sentimos portadores internamente.

Mas, como diz a música: "chega um dia em que a casa cai". Algo acontece para que ela comece a ruir. Inicia, as vezes, com um pequeno estalo. Ali surgem umas rachaduras. Acola, começa a surgir umas infiltrações, o reboco começa a cair. E, de repente, pimba!!! Lá se vai toda a estrutura ao chão. Essa é uma forma simbólica de representar a "desconstrução de nossas máscaras ilusórias", quando nosso verdadeiro Eu começa a surgir. Sabe fossa quando começa a transbordar?!! É uma situação semelhante. Parece que tudo "de podre" resolveu sair de uma vez. O espírito começa a "regurgitar" sua própria miséria emocional. Ela é feia, gosmenta, as vezes pavorosa, causa dor, uma dor que dilacera suas entranhas. É como se estivessem lhe "abrindo com um facão" por dentro. A dor é tanta que você começa a sufocar. 

E ai, vem a sensação de morte. Uma sensação interna, louca. Eu morri. Por dentro. A pessoa não sabe mais o que é, nem quem é. Perdeu a referência ilusória. Essa morte é acompanhada de uma dor imensa. Uma vontade de desistir porque ela não consegue suportar a sua verdade. Ela não consegue ver em si forças para administrar suas descobertas. E é nesse momento que muita gente resolve "abandonar a vida" e, por não querer mais lutar, o jeito é não viver. 

Depois da crise, a sensação de morte a acompanha. No lugar do coração parece haver apenas um oco com a plaquinha indicativa "aqui jaz"!! Ao seu redor apenas destroços, cacos, estilhaços de si mesma. Mas, se a pessoa tiver a paciência de esperar a "crise" passar, ela aos poucos verá que dessa "destruição" começa a acontecer algo. Mesmo aparentemente sem forças para andar, ela consegue se erguer nas pernas. E olhando os destroços ao seu redor ela percebe que a dor ainda continua lá, mas sem tanta força, algo meio perene. Como um mar que depois da tempestade asserena, apesar de ainda estar "barrento", sujo. Ela começa a juntar alguns cacos para ver se ainda dá pra colar. 

E, que coisa interessante!
A pessoa percebe que no meio dos escombros (que ela ainda tem de recolher pra dar destino) começam a brotar algumas plantas. Uma grama aqui, um matinho ali, acola uma florzinha do campo. É a esperança brotando de novo. Algo vai nascendo no meio daqueles entulhos de uma forma bonita, colorida, viçosa. É a vida que ressurge!!! Agora de uma forma diferente. E ela percebe que "colar os cacos" não é o caminho. A ideia é pegar esses entulhos, jogá-los na máquina de reciclagem e deles tirar algo novo. 

Essa é a morte que dá vida quando ainda estamos em vida. E fatalmente nós passaremos, em algum momento da nossa existência por ela ou pela outra situação. E a pergunta que me faço é: é melhor morrer em vida ou renascer muitas vezes na mesma existência?!

Muitos vivem mortos e não sabem. Outros pensam que morreram, mas na verdade estão em pleno processo de renascimento. Assim é a vida.

*Como diria meu querido Rubem Alves: "Chegada e despedida, vida e morte - não são inimigas; são irmãs. (...) Sem a Morte, a Vida não existiria. A vida é, precisamente, uma eterna despedida ..."

Boa morte pra você!

*Do livro: "Do Universo à Jabuticaba", Editora Planeta

quinta-feira, 17 de julho de 2014

Como diz Rubem Alves - Ostra feliz não faz pérola

Hoje eu estou triste.

E assim me encontro devido ao estado de saúde de alguém que, apesar de eu não conhecer pessoalmente, admiro e tenho grande carinho e apreço. A ele devo a oportunidade de aprender a gostar da poesia, das figuras de linguagem que, aparentemente inocentes, nos dizem tudo. Falo do escritor e poeta Rubem Alves internado desde o dia 10 de julho.

Mas, não venho aqui fazer lamentações, isso não. Até porque, por ser espiritualista e saber que ninguém deixa de existir, mas apenas muda de plano, sei que a essência desse homem, o seu espírito, vai continuar com toda a beleza que ele hoje nos doa através de seus livros, parta ele agora ou daqui a mais alguns anos. Ele é um IMORTAL no espírito. E no meu coração também.

Venho aqui hoje para usar um de seus maravilhosos textos para conversar com você que lê essas minhas mal traçadas linhas. O texto tem um pouco a ver com o momento dele, talvez com o meu momento, quem sabe, com o seu também. O seu título é OSTRA FELIZ NÃO FAZ PÉROLA.

Esse para mim é um dos livros mais lindos dele (Só perde para o Amor que acende a lua!).

Num dos textos dessa obra Rubem relembra como nasce a pérola que, na verdade, deriva de uma agressão à ostra. Essa agressão não se dá na casca dela, ou seja, no lado externo, e sim, no seu interior. Para se proteger do agente agressor que a fere, a ostra começa a liberar um material que isola aquele intruso e que vai formando camadas e mais camadas em seu entorno, até se transformar naquilo que é o desejo de consumo de muita gente: uma linda e reluzente pérola.

E ele faz a conexão dessa situação da ostra, conosco, seres humanos.

Todos nós passamos por momentos da vida em que somos agredidos, machucados, magoados. As vezes nos ferimos imensamente. As vezes essas dores são causadas por termos ferido alguém. E isso gera uma dor muito grande dentro de nós. São as chamadas "dores da alma". E assim como a ostra, nós também tentamos nos "proteger" da dor. 

Alguns criam uma espécie de "capa" no sentimento para fazer de conta que ele não existe, não está ali. Seja por incapacidade de olhar pra ele, de suportar sua intensidade, de descobrir sua participação nele, seja porque deseja fugir mesmo daquilo. Para isso se anestesiam, dopam-se ou de remédios ou de drogas diversas, ou ainda, foge através do bloqueio mental, da negação, para poder "dar conta" de necessidades do momento, afinal é preciso trabalhar, sobreviver pois a vida continua. E jogam-no lá no "lixão" da mente. 

Esses, apesar de momentaneamente conseguirem o amortecimento da dor, não a resolvem, deixam ela lá latente, prestes a explodir a qualquer momento, bastando para isso um agente catalisador. E quando ela não explode, vai com o tempo encrustando dentro da gente, virando uma espécie de capa dura. Vai nos "endurecendo" o sentimento, nos anulando por dentro, nos consumindo. Aos poucos perdemos o sentido de viver, o prazer na convivência conosco e com o outro, vamos azedando, nos tornando pessoas pesadas, densas, amargas. Morremos por dentro, adoecemos. Por fora, vamos definhando a olhos vistos. Estes, enquanto não tiverem a coragem de olhar "para o intruso", nesse caso o sentimento que tenta negar, não obterão cura, não realizarão seu crescimento emocional. Não transformarão isso em mudança. Não virarão pérola.

Para virar pérola a gente precisa receber a dor e aceitá-la. Ter a coragem de vivê-la, senti-la, por maior que ela seja. É preciso identificá-la dentro de nós, nominá-la e não ter medo. Falar dela, chorar num ombro amigo ou sozinho, confiar em alguém para compartilhar essa dor. Porque a dor que se compartilha fica mais leve, mais suportável. Não a transferimos para o outro, mas falar dela com alguém faz com que ela deixe de nos assustar porque tivemos a coragem de vê-la, ouvi-la, conversar com ela. Perdoá-la e nos perdoar. 

É a partir dessa "aceitação" e vivencia que começamos a soltar o "nácar" (o material que a ostra libera para envolver o intruso que a fere) para envolver aquela ameaça interna que nos agride. Começa ai a bela construção de algo melhor, mais bonito, mais pleno dentro de nós. É o momento de trabalhar com afinco, com carinho, com amor por nós mesmos. Sem medo, sem amarras, com fé e autoaceitação.

E desse movimento interno de "transmutação", o agente intruso que antes nos incomodava é transformado em um ponto de luz e nós começamos a nos tornar belas pérolas. Seres melhores, mais leves, mais felizes. Mais plenos.

Ah Rubem, você, de fato, sabia o que estava dizendo meu amigo. 

Todos nós somos ostras que a vida precisa, de vez em quando, invadir para que possamos nos tornar pérolas. Caso contrário morreremos apenas como algo duro por fora e mole por dentro, deixando nos outros apenas a sensação de uma satisfação momentânea, perecível. 

A pérola, não!! Transformar-se nessa pedra preciosa significa encantar a vida de alguém por muito tempo, através da beleza que de si emana. Ficar em sua memória.

E ai vem a inevitável pergunta: você está se mantendo uma ostra, fechado para a vida, ou se transformando numa linda pérola?!

Bjs.

OSTRA FELIZ NÃO FAZ PÉROLA

Ostras são moluscos, animais sem esqueletos, macias, que são as delícias dos gastrônomos. Podem ser comidas cruas, de pingos de limão, com arroz, paellas, sopas. Sem defesas - são animais mansos - seriam uma presa fácil dos predadores.

Para que isso não acontecesse a sua sabedoria as ensinou a fazer casas, conchas duras, dentro das quais vivem.

Pois havia num fundo de mar uma colônia de ostras, muitas ostras. Eram ostras felizes. Sabia-se que eram ostras felizes porque de dentro de suas conchas, saía uma delicada melodia, música aquática, como se fosse um canto gregoriano, todas cantando a mesma música. Com uma exceção: de uma ostra solitária que fazia um solo solitário... Diferente da alegre música aquática, ela cantava um canto muito triste... As ostras felizes riam dela e diziam: "Ela não sai da sua depressão..." Não era depressão. Era dor. Pois um grão de areia havia entrado dentro da sua carne e doía, doía, doía. E ela não tinha jeito de se livrar dele, do grão de areia. Mas era possível livrar-se da dor.

O seu corpo sabia que, para se livrar da dor que o grão de areia lhe provocava, em virtude de sua aspereza, arestas e pontas, bastava envolvê-lo com uma substância lisa, brilhante e redonda. 

Assim, enquanto cantava o seu canto triste, o seu corpo fazia o seu trabalho - por causa da dor que o grão de areia lhe causava.

Um dia passou por ali um pescador com seu barco. Lançou a sua rede e toda a colônia de ostras, inclusive a sofredora, foi pescada. O pescador se alegrou, levou-a para sua casa e sua mulher fez uma deliciosa sopa de ostras. Deliciando-se com as ostras, de repente seus dentes bateram num objeto duro que estava dentro da ostra. Ele tomou-a em suas mãos e deu uma gargalhada de felicidade; era uma pérola, uma linda pérola. Apensa a ostra sofredora fizera uma pérola. Ele tomou a pérola e deu-a de presente para a sua esposa. Ela ficou muito feliz..."

Ostra feliz não faz pérolas. Isso vale para as ostras e vale para nós, seres humanos.

As pessoas que se imaginam felizes simplesmente se dedicam a gozar a vida. E fazem bem. Mas as pessoas que sofrem, elas têm de produzir pérolas para poder viver. Assim é a vida dos artistas, dos educadores, dos profetas. Sofrimento que faz pérola não precisa ser sofrimento físico. Raramente é sofrimento físico. Na maioria das vezes são dores da alma.

Rubem Alves