sexta-feira, 25 de julho de 2014

As lágrimas. Ah, as lágrimas ...

Há momentos em que só elas nos ajudam. 
Chegam as vezes mansas, outras de forma transbordante.
Descarregam o que vai na alma e aliviam.
Elas são as lágrimas.

Há momento da vida em que só elas podem nos dar alívio.
Sim, pequenas gotículas de água que vertem dos nossos olhos.
Ah, quão abençoadas são quando vem em abundância.
Quanta serenidade nos dão.

Lágrimas.
Gosto desse nome.
Acho-o doce, confortante.
Assim como elas são.

As lágrimas existem para acusar um fim.
Elas também podem significar um começo.
Elas podem até significar um grande apreço.
Mas no fim, elas são apenas lágrimas que vertem de mim.

Curtindo a chuva ...

Como é bom sentir a chuva.
Senti-la cair no rosto, tocar o corpo, lavar a alma.
Como é bom ouvir o barulho da água ao encontro do solo, dos telhados.
Como é bom simplesmente vê-la.

Chuva é algo mágico.
Tem cheiro de terra molhada.
Tem barulho que, as vezes, parece de lata.
Tem frescor e brisa.

Começar o dia com seu som aos ouvidos é música pura.
A quanto tempo não tomo um bom banho de chuva?
Nem me lembro mais.
Acho que está na hora de relembrar.

Aos poucos o som da chuva vai silenciando.
Um pássaro avisa que já é hora de voar de novo.
E o dia começa calmo e molhado.
Sim, é dia de viver novamente.

quarta-feira, 23 de julho de 2014

Para morrer, basta estar vivo ...

Hoje eu estava pensando na morte.
Não falo daqueles dois tipos de morte que a gente mais conhece, as chamadas mortes "morrida" e "matada". A primeira é quando a gente morre de uma doença, pelo efeito inexorável do tempo em nosso corpo. A morte matada é quando a gente morre devido a um agente externo, um acidente, um tiro, um desastre.
Não é sobre essas mortes que eu refletia.

Eu refletia sobre dois tipos de "mortes" que, apesar de terem nomes iguais e simbologias similares, tem resultados distintos. Na verdade meu pensamento navega pelos óbitos que "fazem morrer" e que "fazem nascer". Calma, que vou explicar.

Essas mortes das quais falo se dão quando estamos em vida ou "dentro do nosso corpo de carne". E possuem características particulares que podem, ao final do processo, decretar que a pessoa "vire um defunto em vida" ou "se transforme numa borboleta que sai do casulo".

Vamos falar, inicialmente, da morte que mata.
Essa acontece quando perdemos o "prazer de viver". A existência passa a ser apenas um cumprir de agenda, um acordar, trabalhar, dormir, ininterrupto. Vivemos como autômatos, robôs condicionados, e nem percebemos. Essa morte se dá quando, diante um choque emocional, algo que nos agride imensamente, ou diante de uma perda que consideramos muito dolorosa, a gente nega o que sentiu e "engole" o sentimento ou a emoção. Esse "Eu" machucado, adoecido, magoado, sofrido, não quer se mostrar. Não pode se mostrar pra si ou para o mundo porque a dor dele é muito grande, quase insuportável. Uma dor de quase morte. E, para poder sobreviver, esse Eu se esconde em algum lugar dentro de si mesmo, de preferência num lugar bem escuro, a prova de som, de cheiro. E fica lá.

Só que esse Eu escondido é um ser com vida. E para que ele se sinta vivo, precisa de ar, de sol, de água, de alegria, de céu azul. E por não ter nada disso, já que está preso, ele começa a apodrecer. Nada enclausurado pode ficar saudável, não tem como. Ele precisa sair, ele precisa de ar para não fenecer. Ele precisa ser "redescoberto", revisitado, liberto, por quem o aprisionou.

Enquanto isso o dono do sentimento ou emoção, que está preso e apodrecendo, continua vivendo do lado de fora. Aparentemente bem, tocando a vida. Mas, o "lixo escondido" que está a se deteriorar devido a ação do tempo começa a exalar odores e chorume (que é o líquido que se solta do lixo acumulado, altamente tóxico. Quem já visitou um lixão sabe do que estou falando), corroendo aos poucos o mundo interno da pessoa. Inicialmente é uma irritação contínua aqui, ali uma mudança no padrão do comportamento, ela passa a sorrir menos, a se tornar mais exigente consigo e com o mundo, mais crítica em relação a tudo que a cerca, imensamente defensiva, deixa de ter prazer em se olhar no espelho, não cuida mais de si. Começa a adoecer fisicamente e os remédios não resolvem o problema. Passa a viver o dia de hoje igual ao dia de ontem, que será igual ao dia de amanhã. Ela vai enferrujando as engrenagens por dentro, azedando. E não percebe que isso é um tipo de "morte". De morte em vida, o que é pior!

E muito anos assim podem transcorrer com a pessoa carregando dentro de si sentimentos de desamor, culpa, remorsos, tudo porque não teve a coragem de "olhar para aquele sentimento ou emoção" que a machucou e assumi-lo, tratá-lo, reconhecê-lo, acolhê-lo com carinho e ressignificá-lo. Porque toda situação, todo sentimento e emoção, é um caminho de autoconhecimento, de reconstrução de posturas e atitudes, de aprimoramento íntimo. E enquanto isso não for "visto" e tratado, a pessoa continuará a morrer aos poucos até que, por um enfarto, um aneurisma, um derrame, causado pela pressão interna que a incomoda, ela "realmente" morra segundo a significação física para isso. Aqui a "morte" foi consumada.

O outro tipo de morte a que me referi no início do texto consiste na morte do Eu. E falo aqui desse Eu ilusório que edificamos ao longo dos anos, do cair das máscaras que somos obrigados a usar em vida para sermos aceitos em sociedade. Algumas delas são inconscientes, fizeram parte das experiências que a criança e o jovem que fomos tiveram e que precisaram ser construídas, também, por uma questão de sobrevivência. Outras são colocadas para esconder as nossas inseguranças, temores, baixa autoestima. Também usadas como armas de defesa são sustentadas o tempo que for preciso, as vezes, uma vida inteira, para que possamos nos sentir alguém, para que possamos nos dar o valor que não nos sentimos portadores internamente.

Mas, como diz a música: "chega um dia em que a casa cai". Algo acontece para que ela comece a ruir. Inicia, as vezes, com um pequeno estalo. Ali surgem umas rachaduras. Acola, começa a surgir umas infiltrações, o reboco começa a cair. E, de repente, pimba!!! Lá se vai toda a estrutura ao chão. Essa é uma forma simbólica de representar a "desconstrução de nossas máscaras ilusórias", quando nosso verdadeiro Eu começa a surgir. Sabe fossa quando começa a transbordar?!! É uma situação semelhante. Parece que tudo "de podre" resolveu sair de uma vez. O espírito começa a "regurgitar" sua própria miséria emocional. Ela é feia, gosmenta, as vezes pavorosa, causa dor, uma dor que dilacera suas entranhas. É como se estivessem lhe "abrindo com um facão" por dentro. A dor é tanta que você começa a sufocar. 

E ai, vem a sensação de morte. Uma sensação interna, louca. Eu morri. Por dentro. A pessoa não sabe mais o que é, nem quem é. Perdeu a referência ilusória. Essa morte é acompanhada de uma dor imensa. Uma vontade de desistir porque ela não consegue suportar a sua verdade. Ela não consegue ver em si forças para administrar suas descobertas. E é nesse momento que muita gente resolve "abandonar a vida" e, por não querer mais lutar, o jeito é não viver. 

Depois da crise, a sensação de morte a acompanha. No lugar do coração parece haver apenas um oco com a plaquinha indicativa "aqui jaz"!! Ao seu redor apenas destroços, cacos, estilhaços de si mesma. Mas, se a pessoa tiver a paciência de esperar a "crise" passar, ela aos poucos verá que dessa "destruição" começa a acontecer algo. Mesmo aparentemente sem forças para andar, ela consegue se erguer nas pernas. E olhando os destroços ao seu redor ela percebe que a dor ainda continua lá, mas sem tanta força, algo meio perene. Como um mar que depois da tempestade asserena, apesar de ainda estar "barrento", sujo. Ela começa a juntar alguns cacos para ver se ainda dá pra colar. 

E, que coisa interessante!
A pessoa percebe que no meio dos escombros (que ela ainda tem de recolher pra dar destino) começam a brotar algumas plantas. Uma grama aqui, um matinho ali, acola uma florzinha do campo. É a esperança brotando de novo. Algo vai nascendo no meio daqueles entulhos de uma forma bonita, colorida, viçosa. É a vida que ressurge!!! Agora de uma forma diferente. E ela percebe que "colar os cacos" não é o caminho. A ideia é pegar esses entulhos, jogá-los na máquina de reciclagem e deles tirar algo novo. 

Essa é a morte que dá vida quando ainda estamos em vida. E fatalmente nós passaremos, em algum momento da nossa existência por ela ou pela outra situação. E a pergunta que me faço é: é melhor morrer em vida ou renascer muitas vezes na mesma existência?!

Muitos vivem mortos e não sabem. Outros pensam que morreram, mas na verdade estão em pleno processo de renascimento. Assim é a vida.

*Como diria meu querido Rubem Alves: "Chegada e despedida, vida e morte - não são inimigas; são irmãs. (...) Sem a Morte, a Vida não existiria. A vida é, precisamente, uma eterna despedida ..."

Boa morte pra você!

*Do livro: "Do Universo à Jabuticaba", Editora Planeta

quinta-feira, 17 de julho de 2014

Como diz Rubem Alves - Ostra feliz não faz pérola

Hoje eu estou triste.

E assim me encontro devido ao estado de saúde de alguém que, apesar de eu não conhecer pessoalmente, admiro e tenho grande carinho e apreço. A ele devo a oportunidade de aprender a gostar da poesia, das figuras de linguagem que, aparentemente inocentes, nos dizem tudo. Falo do escritor e poeta Rubem Alves internado desde o dia 10 de julho.

Mas, não venho aqui fazer lamentações, isso não. Até porque, por ser espiritualista e saber que ninguém deixa de existir, mas apenas muda de plano, sei que a essência desse homem, o seu espírito, vai continuar com toda a beleza que ele hoje nos doa através de seus livros, parta ele agora ou daqui a mais alguns anos. Ele é um IMORTAL no espírito. E no meu coração também.

Venho aqui hoje para usar um de seus maravilhosos textos para conversar com você que lê essas minhas mal traçadas linhas. O texto tem um pouco a ver com o momento dele, talvez com o meu momento, quem sabe, com o seu também. O seu título é OSTRA FELIZ NÃO FAZ PÉROLA.

Esse para mim é um dos livros mais lindos dele (Só perde para o Amor que acende a lua!).

Num dos textos dessa obra Rubem relembra como nasce a pérola que, na verdade, deriva de uma agressão à ostra. Essa agressão não se dá na casca dela, ou seja, no lado externo, e sim, no seu interior. Para se proteger do agente agressor que a fere, a ostra começa a liberar um material que isola aquele intruso e que vai formando camadas e mais camadas em seu entorno, até se transformar naquilo que é o desejo de consumo de muita gente: uma linda e reluzente pérola.

E ele faz a conexão dessa situação da ostra, conosco, seres humanos.

Todos nós passamos por momentos da vida em que somos agredidos, machucados, magoados. As vezes nos ferimos imensamente. As vezes essas dores são causadas por termos ferido alguém. E isso gera uma dor muito grande dentro de nós. São as chamadas "dores da alma". E assim como a ostra, nós também tentamos nos "proteger" da dor. 

Alguns criam uma espécie de "capa" no sentimento para fazer de conta que ele não existe, não está ali. Seja por incapacidade de olhar pra ele, de suportar sua intensidade, de descobrir sua participação nele, seja porque deseja fugir mesmo daquilo. Para isso se anestesiam, dopam-se ou de remédios ou de drogas diversas, ou ainda, foge através do bloqueio mental, da negação, para poder "dar conta" de necessidades do momento, afinal é preciso trabalhar, sobreviver pois a vida continua. E jogam-no lá no "lixão" da mente. 

Esses, apesar de momentaneamente conseguirem o amortecimento da dor, não a resolvem, deixam ela lá latente, prestes a explodir a qualquer momento, bastando para isso um agente catalisador. E quando ela não explode, vai com o tempo encrustando dentro da gente, virando uma espécie de capa dura. Vai nos "endurecendo" o sentimento, nos anulando por dentro, nos consumindo. Aos poucos perdemos o sentido de viver, o prazer na convivência conosco e com o outro, vamos azedando, nos tornando pessoas pesadas, densas, amargas. Morremos por dentro, adoecemos. Por fora, vamos definhando a olhos vistos. Estes, enquanto não tiverem a coragem de olhar "para o intruso", nesse caso o sentimento que tenta negar, não obterão cura, não realizarão seu crescimento emocional. Não transformarão isso em mudança. Não virarão pérola.

Para virar pérola a gente precisa receber a dor e aceitá-la. Ter a coragem de vivê-la, senti-la, por maior que ela seja. É preciso identificá-la dentro de nós, nominá-la e não ter medo. Falar dela, chorar num ombro amigo ou sozinho, confiar em alguém para compartilhar essa dor. Porque a dor que se compartilha fica mais leve, mais suportável. Não a transferimos para o outro, mas falar dela com alguém faz com que ela deixe de nos assustar porque tivemos a coragem de vê-la, ouvi-la, conversar com ela. Perdoá-la e nos perdoar. 

É a partir dessa "aceitação" e vivencia que começamos a soltar o "nácar" (o material que a ostra libera para envolver o intruso que a fere) para envolver aquela ameaça interna que nos agride. Começa ai a bela construção de algo melhor, mais bonito, mais pleno dentro de nós. É o momento de trabalhar com afinco, com carinho, com amor por nós mesmos. Sem medo, sem amarras, com fé e autoaceitação.

E desse movimento interno de "transmutação", o agente intruso que antes nos incomodava é transformado em um ponto de luz e nós começamos a nos tornar belas pérolas. Seres melhores, mais leves, mais felizes. Mais plenos.

Ah Rubem, você, de fato, sabia o que estava dizendo meu amigo. 

Todos nós somos ostras que a vida precisa, de vez em quando, invadir para que possamos nos tornar pérolas. Caso contrário morreremos apenas como algo duro por fora e mole por dentro, deixando nos outros apenas a sensação de uma satisfação momentânea, perecível. 

A pérola, não!! Transformar-se nessa pedra preciosa significa encantar a vida de alguém por muito tempo, através da beleza que de si emana. Ficar em sua memória.

E ai vem a inevitável pergunta: você está se mantendo uma ostra, fechado para a vida, ou se transformando numa linda pérola?!

Bjs.

OSTRA FELIZ NÃO FAZ PÉROLA

Ostras são moluscos, animais sem esqueletos, macias, que são as delícias dos gastrônomos. Podem ser comidas cruas, de pingos de limão, com arroz, paellas, sopas. Sem defesas - são animais mansos - seriam uma presa fácil dos predadores.

Para que isso não acontecesse a sua sabedoria as ensinou a fazer casas, conchas duras, dentro das quais vivem.

Pois havia num fundo de mar uma colônia de ostras, muitas ostras. Eram ostras felizes. Sabia-se que eram ostras felizes porque de dentro de suas conchas, saía uma delicada melodia, música aquática, como se fosse um canto gregoriano, todas cantando a mesma música. Com uma exceção: de uma ostra solitária que fazia um solo solitário... Diferente da alegre música aquática, ela cantava um canto muito triste... As ostras felizes riam dela e diziam: "Ela não sai da sua depressão..." Não era depressão. Era dor. Pois um grão de areia havia entrado dentro da sua carne e doía, doía, doía. E ela não tinha jeito de se livrar dele, do grão de areia. Mas era possível livrar-se da dor.

O seu corpo sabia que, para se livrar da dor que o grão de areia lhe provocava, em virtude de sua aspereza, arestas e pontas, bastava envolvê-lo com uma substância lisa, brilhante e redonda. 

Assim, enquanto cantava o seu canto triste, o seu corpo fazia o seu trabalho - por causa da dor que o grão de areia lhe causava.

Um dia passou por ali um pescador com seu barco. Lançou a sua rede e toda a colônia de ostras, inclusive a sofredora, foi pescada. O pescador se alegrou, levou-a para sua casa e sua mulher fez uma deliciosa sopa de ostras. Deliciando-se com as ostras, de repente seus dentes bateram num objeto duro que estava dentro da ostra. Ele tomou-a em suas mãos e deu uma gargalhada de felicidade; era uma pérola, uma linda pérola. Apensa a ostra sofredora fizera uma pérola. Ele tomou a pérola e deu-a de presente para a sua esposa. Ela ficou muito feliz..."

Ostra feliz não faz pérolas. Isso vale para as ostras e vale para nós, seres humanos.

As pessoas que se imaginam felizes simplesmente se dedicam a gozar a vida. E fazem bem. Mas as pessoas que sofrem, elas têm de produzir pérolas para poder viver. Assim é a vida dos artistas, dos educadores, dos profetas. Sofrimento que faz pérola não precisa ser sofrimento físico. Raramente é sofrimento físico. Na maioria das vezes são dores da alma.

Rubem Alves

domingo, 13 de julho de 2014

E num domingo de chuva viaje a um mundo maravilhoso...

É domingo. 
E que domingo!
Um dia frio, úmido, chuvoso, gostoso.
Dia de ficar na cama sem hora para sair.

Ouço a chuva que cai lá fora e, olhando pela janela, a vejo cair e molhar a árvore, o solo. Pingos que vão e vem, ora fracos, ora fortes, ora mansos, ora mais violentos.
Que vento delicioso... Parece um carinho que a gente recebe no rosto.
As vezes leve, as vezes intenso, mas sempre gostoso.
Uma maravilhosa sensação de paz e calma me toma na manhã desse domingo.
Domingo de chuva. Domingo fresquinho. Domingo de preguiça.

Qualquer barulho mais intenso do que a chuva parece uma agressão.
Hoje não é dia de grandes ruídos, não. Hoje é dia de serenar. É dia de silêncio externo. Só a chuva deve e pode falar.

Olho a paisagem e vejo os sinais dela em todo o ambiente. 
Água que cai sem cessar. Água que lava, água que revigora, água que dá vida.
O mundo parece entender a necessidade de deixar a chuva cair. 
Todos estão entocados, recolhidos.

Sim, afinal hoje é dia de ouvir outros mundos.
Mundos próximos fisicamente, mas tão distantes as vezes de nossos ouvidos.
Mundos, em sua maioria, belos e ricos. 
Porém, plenamente desconhecidos. 
E que por isso assombram, causam medo, desejo de fuga. 
Como se lá fosse um lugar ruim, tenebroso, assustador, rígido.

Ah, em dias de boa chuva como a de hoje o grande barato é conhecer novos mundos.
Abrir portas e fundos. 
Deixar a luz entrar nesse mundo amplo e vasto. 
Ao mesmo tempo encantador e assustador.

Belo e feio. 
Luminoso e também sombrio.
Sereno e tempestuoso.
Com belos espelhos d'água e mares bravios.
Com flores raras e plantas espinhosas.
Com pássaros multicoloridos e aves grotescas.
Com belos pôr do sol e cinzentas noites.

Sim, esses mundos são assim duais.
Por isso mesmo são especiais.
Por isso mesmo se tornam fascinantes, apesar de apavorantes as vezes.
Até porque eles são únicos, distintos, não existindo dois iguais.
E para a eles viajar, basta apenas um dia de chuva aproveitar.

Onde fica esse mundo?
Você sabe onde ele está.

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Por detrás das nuvens ... sempre há luz.

Agora a pouco dei uma chegadinha na varanda de casa para tentar ver a lua crescente, mas infelizmente as nuvens não permitiram. Tava tudo nublado, o céu estava fechado. Mesmo assim eu sabia que, por detrás daquelas nuvens, ela estava ali.
Eu conseguia perceber a sua presença, ver um pouco de sua claridade.

Penso que em alguns momentos da nossa vida nos sentimos meio como a noite de hoje: sabemos que temos a luz dentro da gente, porém não conseguimos enxergá-la.

E não a vemos porque há um monte de "nuvens" dentro de nós. 
Nosso céu interno está nublado.

E há tanta coisa que pode "empanar" essa beleza luminosa da nossa própria luz.
As vezes são as nuvens do desamor que nos apagam.
Em outras, o redemoinho da culpa envolve o nosso céu interno.
Há também momentos em que furacões tomam conta de nós: culpas, desânimos, desistências de lutar, de ser feliz, descrença.
Em alguns, tempestades de neve deixam gélidos os seus corações.
Há dilúvios que devassam suas certezas, suas bases, que arrastam tudo aquilo de bom que você tinha.

Mas, mesmo que o momento seja de tempestade, por trás das nuvens escuras, densas, ela está lá. A lua. Com sua calma luminosidade, sem nada forçar, nem agredir, ela está lá. Só esperando as nuvens dissiparem-se para reaparecer com toda sua beleza.

Ela sabe que há períodos do ano em que a chuva precisa chegar.
Mesmo aparentemente um mal, ela, a chuva, significa na verdade limpeza, renovação, requalificação de ambientes antes infestados de energias negativas, doentias, deletérias. É no período do inverno que a atmosfera se renova, principalmente depois de muitos dias chuvosos. Depois que eles passam o ar parece que ficou mais leve, mais sereno, melhor até de se respirar.

E o sol, que também estava escondido, reaparece.
E a lua, que estava ali fazendo seu passeio tranquilamente, dá "o ar de sua graça".
E a natureza recebe com alegria o calor benfazejo do astro rei sobre si.
E o lago recebe com prazer o prateado caminho do luar a se desenhar em seu leito.
E a vida volta a pulsar de forma mais bela.

É, realmente a vida é assim.

O danado é que a gente esquece que, por detrás das nuvens que insistem em cobrir o nosso Ser, há uma linda luz acesa: o nosso Eu Divino. Aquilo que sou em essência, em plenitude.

E por mais que os períodos nebulosos insistam em permanecer dentro do ser há um momento em que a vida pede: faça-se luz. 
E a luz será feita.
E a lua volta a brilhar.
E a noite deixa de assustar.
E a vida volta a encantar.

terça-feira, 1 de julho de 2014

Será?

Sabe quando o cansaço é na alma? 
Sim, dentro da alma, algo bem profundo, como se não houvesse nada que você pudesse fazer para preenchê-lo?
Sabe quando você não aguenta mais a pressão, quando tudo lhe cheira a solidão, quando não se consegue para nenhum lugar olhar?

Sim, talvez você saiba.
Talvez você sinta isso também.
Talvez, quem sabe, você está a tanto tempo fugindo disso em si mesmo que até já nem perceba mais que ele está ai, vivo, mesmo que dentro do vazio.

Falo do teu coração.
Falo da tua vontade de amar e ser amado.
Falo do teu desejo de ser feliz.
Falo daquilo que você precisa para voltar a sorrir.

Porque no cerne da questão está o Eu.
Até onde aguentamos a pressão?
Até onde conseguiremos sobreviver e não viver?
Até onde restará ainda algum prazer?

Será isso vida?
Será isso a que tudo se destina?
Será isso o caminho correto e o mais são?
Não será tudo apenas uma dura e cruel ilusão?!

sábado, 28 de junho de 2014

Um instante ...

E em um instante
tudo pode mudar.
Toda uma vida pode ser alterada.
Toda expectativa pode findar.

E num instante
a alegria pode ter vez.
A saudade findar de vez
e só a satisfação voltar.

Num instante
toda uma vida faz sentido
Tudo aquilo que parece perdido
pode finalmente aclarar.

Por um instante
eu posso me perder nos teus braços
Eu posso encontrar um regaço 
e dele nunca mais voltar.

Mas, por um instante
tudo que era certo fica duvidoso
tudo que tinha sabor fica insosso
tudo que parecia certo, pode não estar.

sábado, 26 de abril de 2014

No outono dos dias ...

E contemplo o findar do dia nessa bela tarde de outono.
O sol se despede de mim. 
O céu torna-se mais azul. 
A noite chega serena.

O mundo cobre-se de pequenas sombras.
Elas não me assustam, pelo contrário.
Elas me falam de calma, de silêncio, de asserenamento.
Elas me trazem paz.

O outono tem suas peculiaridades.
Nos traz a simbologia do acalmar, de diminuir o ritmo, a ansiedade.
Outono é época de começar a se recolher.
De se preparar para invernar.

E para se preparar para o inverno é preciso perder.
As vezes perder ilusões, medos, sonhos. 
É preciso separar o real do irreal.
Para nos momentos de recolhimento invernal gestar o renascer.

Mas só renasce, quem morre.
E morrer por vezes é dolorido.
Mas como nos mostra a sabedoria da natureza.
É perdendo, morrendo e renascendo que volta o nosso colorido. 


Nesse momento busco soltar folhas já mortas e gastas pelo tempo.
Folhas que, antes viçosas, secaram com o passar das estações.
Sinto-me nua, sem muradas de proteção, vejo-me exposta.
Sentimento estranho e dorido, sim. Mas que me traz paz.

E é com essa paz que pretendo invernar.
Mergulhar no período do frio, dos ventos, da chuva.
Pretendo deixar-me lavar por eles, permiti-los varrer-me.
Para que na próxima primavera eu floresça em mim.

sábado, 19 de abril de 2014

Você leva sua vida como Judas ou Pedro?!

Oi gente!!


Sábado de páscoa com um dia maravilhoso aqui no Recife e Região Metropolitana. Nossa, fazia tempo que eu não via um dia e uma noite tão belos como os de hoje. Um verdadeiro presente de páscoa pra gente aqui. E esse dia belo me trouxe também uma sensação de alegria muito grande, mesmo passando parte do dia "ensaboando no tanque". 

Desde quinta-feira que venho "matutando cá com os meus botões" sobre esse negócio de páscoa. Fico vendo a correria do povo pra viajar, pra comprar peixe, ovo, bredo, fazer comida, cumprir agendas obrigatórias, enfim. E percebo pouco ou quase nenhum comentário sobre a simbologia desse período. Em anos anteriores, em outros textos que escrevi, já coloquei diversas vezes minha visão sobre quais referências esse período me traz acerca do homem chamado Jesus. 

E antes que você fique pensando que "vou fazer proselitismo religioso" peço-lhe um pouquinho de paciência pois, não é esse meu objetivo com esse post de hoje. Na verdade, estou aqui para falar sobre a importância do auto perdão e vou usar dois personagens para exemplificar isso, são eles Pedro e Judas.

No período da Páscoa são relembrados os últimos momentos da vida do Cristo, desde a última ceia com os apóstolos até a ressurreição. Volto a dizer que há muito mais para se pensar ou refletir nesse período, do que simplesmente ficar "cultuando" a imagem de Jesus ensanguentado e todo quebrado na cruz. Há em todo o seu entorno inúmeras, diversas histórias e nuances que merecem nossa atenção e uma delas é a forma como esses dois homens, Judas e Pedro, reagiram aos erros que cometeram.

Judas, como você bem deve lembrar, vendeu Jesus para os romanos por 30 moedas de ouro. Pedro, ao contrário, não entregou o Mestre para ser crucificado, mas negou-o por três vezes mesmo dizendo que nunca faria isso. Talvez você olhando essas duas situações diria: mas o crime de Judas foi muito pior do que o de Pedro, pois ele entregou Jesus para ser morto!!

Pois é. Olhando "assim por cima" certamente o erro de Judas aparenta ser mais grave, porém, o que devemos levar em consideração é "o que estava por trás", o que motivou esses dois corações a cometerem os erros e, mais importante ainda, qual a capacidade que cada um possuía de administrar, digerir, esse equívoco. Porque, o que para mim pode parecer uma besteira, algo banal, para o outro pode ser algo danoso, imenso, de um peso muito grande, algo indesculpável, imperdoável.

Tanto Judas, quanto Pedro, em nenhum momento foram recriminados por Jesus, criticados ou excluídos do Seu amor, mesmo Ele sabendo com antecedência que tais fatos se sucederiam. Jesus sabia das ambições de Judas, de que ele não O via como um semeador de amor, de uma mensagem diferente. Na verdade, Judas esperava o grande Messias, o libertador do povo judeu, aquele que os livraria do jugo romano através da espada, da violência. Ele não entendia que a libertação que o Mestre faria não se daria pela força física, mas sim, pelo emponderamento emocional que Ele facultava a quem O ouvia com mensagens sobre o reino de Deus, sobre a justiça para quem ama, sobre a transitoriedade da matéria. E por isso, Judas entregou Jesus aos romanos na expectativa de que aquele homem poderoso que fazia curas milagrosas, fizesse descer "os anjos do céu" e com seu exército libertasse o povo judeu. Mas, Ele surpreende-o ao se deixar prender de forma pacífica, ao não revidar a agressão, a violência de que era alvo. Ao ver o que tinha feito, ou seja, mandado o Mestre para a morte, Judas enlouquece de dor e tamanho é o seu sentimento de culpa que ele se mata, se auto destrói. 

Pedro, depois que vê Jesus sendo preso, foge e vai acompanhando o sofrimento do Mestre e amigo de longe, deixando seu lado humano, sua sombra, falar mais alto. Ele se amedronta com a possibilidade de também ser detido, açoitado e crucificado. Por isso, quando lhe perguntam se ele também seguia à Jesus de Nazaré, Pedro nega veementemente até que, após a terceira negativa e o cantar do galo, ele se lembra do que o Amigo havia dito na última ceia: "antes que o galo cante, tu me negarás três vezes". E ele, Pedro, na impetuosidade que lhe caracterizava o agir, havia dito que jamais faria isso. Após o cantar da ave, o apóstolo encontra o olhar amoroso de Jesus que, mesmo em sofrimento, que não o recrimina, não o acusa, apenas lhe endereça compreensão pela fraqueza do amigo. E Pedro chora. Foge em desespero e chora copiosamente a sua dor, a sua vergonha, o seu sofrimento. Mas, ele pega aquele erro e o usa como um trampolim para mudar tudo em sua vida.

Aqui chego ao foco desse meu post: a diferença com que Judas e Pedro gerenciaram seus erros. 

Judas não aguentou o peso. Rígido moralmente que era, ele não teve resiliência* suficiente para administrar a pressão que o seu campo psíquico gerou com a consciência do equívoco. Ele não usou consigo da auto compreensão, da auto indulgência, do auto amor. Pelo contrário, fixou-se na culpa, no remorso, e com isso gerou uma energia tão danosa, tão pesada para si mesmo, que o caminho que encontrou para tentar buscar alívio foi o auto aniquilamento. Ele não soube aceitar sua falibilidade e usar o erro para mudar, para crescer. Ele não soube compartilhar a sua dor com o outro, fechou-se em si mesmo. 

Já Pedro também desaba sobre si mesmo num sentimento de dor profunda por ter negado ao Homem a quem ele seguia e amava como um pai. Mas, ele não se deixa levar pela culpa que paralisa, pelo remorso. Pedro se arrepende!!! Ele reconhece que errou, analisa o que fez e toma uma decisão: ia se redimir perante sua própria consciência dedicando o resto de sua vida para manter viva a mensagem do Mestre que ele negou. O pescador, mesmo sendo intelectualmente mais humilde do que Judas, mas emocionalmente era mais rico em resignação, flexibilidade, compaixão, empatia, aceitação de si mesmo. Pedro aceita sua falibilidade, reconhece-a e a supera com novas atitudes e novos comportamentos que mudariam para sempre sua maneira de ser e de agir. Ele usou um momento de "vacilo", de fraqueza, para se tornar alguém mais forte ao ponto de não fugir de novo na hora do novo testemunho pedindo para ser crucificado "de cabeça pra baixo", pois "não merecia morrer como o Mestre". E foi graças a essa capacidade de ser resiliente, que Pedro deu continuidade ao trabalho de amor iniciado por Jesus.

Meu objetivo com o resgate dessas duas histórias de vida é fazer com que você, que me lê nesse momento, pare para pensar: como tenho me comportado diante dos erros que cometi ou cometo nessa existência? Como Judas, me culpando eternamente e me condenando a um inferno, a um castigo sem remissão?! Ou como Pedro reconhecendo meu erro, me arrependendo verdadeiramente, tirando dele o ensinamento que preciso para não mais cometê-lo e construir uma vida mais plena e mais feliz com novas atitudes?!

Saiba que a resposta a essa pergunta pode alterar para sempre o rumo de sua vida, porque se você se vir como Judas vá imediatamente em busca de ajuda para sair desse ciclo vicioso, antes que destruas a si mesmo. 

Lembre-se que a mensagem deixada por Jesus foi de perdão, recomeço e alegria sempre. Sua palavra foi toda de esperança de dias melhores para aqueles que descobrissem o caminho do amor. E a gente só pode descobrir o amor, quando descobre também o amor a si.

Desejo sinceramente que nessa Páscoa aqueles que "pregaram-se voluntariamente" na cruz da culpa e da auto destruição, encontrem a saída e voltem a trilhar o caminho da luz e da alegria. Já dizia o Mestre de Nazaré: "bem aventurados aqueles que são misericordiosos, pois obterão misericórdia". E a primeira pessoa com quem temos que ser misericordiosos é conosco mesmo!!!

Bjs e boa páscoa para você.

*Resiliência: capacidade de lidar com problemas, superar obstáculos ou resistir à pressão de situações adversas - choque, estresse etc. - sem entrar em surto psicológico