quarta-feira, 23 de julho de 2014

Para morrer, basta estar vivo ...

Hoje eu estava pensando na morte.
Não falo daqueles dois tipos de morte que a gente mais conhece, as chamadas mortes "morrida" e "matada". A primeira é quando a gente morre de uma doença, pelo efeito inexorável do tempo em nosso corpo. A morte matada é quando a gente morre devido a um agente externo, um acidente, um tiro, um desastre.
Não é sobre essas mortes que eu refletia.

Eu refletia sobre dois tipos de "mortes" que, apesar de terem nomes iguais e simbologias similares, tem resultados distintos. Na verdade meu pensamento navega pelos óbitos que "fazem morrer" e que "fazem nascer". Calma, que vou explicar.

Essas mortes das quais falo se dão quando estamos em vida ou "dentro do nosso corpo de carne". E possuem características particulares que podem, ao final do processo, decretar que a pessoa "vire um defunto em vida" ou "se transforme numa borboleta que sai do casulo".

Vamos falar, inicialmente, da morte que mata.
Essa acontece quando perdemos o "prazer de viver". A existência passa a ser apenas um cumprir de agenda, um acordar, trabalhar, dormir, ininterrupto. Vivemos como autômatos, robôs condicionados, e nem percebemos. Essa morte se dá quando, diante um choque emocional, algo que nos agride imensamente, ou diante de uma perda que consideramos muito dolorosa, a gente nega o que sentiu e "engole" o sentimento ou a emoção. Esse "Eu" machucado, adoecido, magoado, sofrido, não quer se mostrar. Não pode se mostrar pra si ou para o mundo porque a dor dele é muito grande, quase insuportável. Uma dor de quase morte. E para poder sobreviver esse Eu se esconde em algum lugar dentro de si mesmo, de preferência num lugar bem escuro, a prova de som, de cheiro. E fica lá.

Só que esse Eu escondido é um ser com vida. E para que ele se sinta vivo, precisa de ar, de sol, de água, de alegria, de céu azul. E por não ter nada disso, já que está preso, ele começa a apodrecer. Nada enclausurado pode ficar saudável, não tem como. Ele precisa sair, ele precisa de ar para não fenecer. Ele precisa ser "redescoberto", revisitado, liberto, por quem o aprisionou.

Enquanto isso o dono do sentimento ou emoção, que está preso e apodrecendo, continua vivendo do lado de fora. Aparentemente bem, tocando a vida. Mas, o "lixo escondido" que está a se deteriorar devido a ação do tempo começa a exalar odores e chorume (que é o líquido que se solta do lixo acumulado, altamente tóxico. Quem já visitou um lixão sabe do que estou falando), corroendo aos poucos o mundo interno da pessoa. Inicialmente é uma irritação contínua aqui, ali uma mudança no padrão do comportamento, ela passa a sorrir menos, a se tornar mais exigente consigo e com o mundo, mais crítica em relação a tudo que a cerca, imensamente defensiva, deixa de ter prazer em se olhar no espelho, não cuida mais de si. Começa a adoecer fisicamente e os remédios não resolvem o problema. Passa a viver o dia de hoje igual ao dia de ontem, que será igual ao dia de amanhã. Ela vai enferrujando as engrenagens por dentro, azedando. E não percebe que isso é um tipo de "morte". De morte em vida, o que é pior!

E muito anos assim podem transcorrer com a pessoa carregando dentro de si sentimentos de desamor, culpa, remorsos, tudo porque não teve a coragem de "olhar para aquele sentimento ou emoção" que a machucou e assumi-lo, tratá-lo, reconhecê-lo, acolhê-lo com carinho e ressignificá-lo. Porque toda situação, todo sentimento e emoção, é um caminho de autoconhecimento, de reconstrução de posturas e atitudes, de aprimoramento íntimo. E enquanto isso não for "visto" e tratado, a pessoa continuará a morrer aos poucos até que, por um enfarto, um aneurisma, um derrame, causado pela pressão interna que a incomoda, ela "realmente" morra segundo a significação física para isso. Aqui a "morte" foi consumada.

O outro tipo de morte a que me referi no início do texto consiste na morte do Eu. E falo aqui desse Eu ilusório que edificamos ao longo dos anos, do cair das máscaras que somos obrigados a usar em vida para sermos aceitos em sociedade. Algumas delas são inconscientes, fizeram parte das experiências que a criança e o jovem que fomos tiveram e que precisaram ser construídas, também, por uma questão de sobrevivência. Outras são colocadas para esconder as nossas inseguranças, temores, baixa autoestima. Também usadas como armas de defesa são sustentadas o tempo que for preciso, as vezes, uma vida inteira, para que possamos nos sentir alguém, para que possamos nos dar o valor que não nos sentimos portadores internamente.

Mas, como diz a música: "chega um dia em que a casa cai". Algo acontece para que ela comece a ruir. Inicia, as vezes, com um pequeno estalo. Ali surgem umas rachaduras. Acola, começa a surgir umas infiltrações, o reboco começa a cair. E, de repente, pimba!!! Lá se vai toda a estrutura ao chão. Essa é uma forma simbólica de representar a "desconstrução de nossas máscaras ilusórias", quando nosso verdadeiro Eu começa a surgir. Sabe fossa quando começa a transbordar?!! É uma situação semelhante. Parece que tudo "de podre" resolveu sair de uma vez. O espírito começa a "regurgitar" sua própria miséria emocional. Ela é feia, gosmenta, as vezes pavorosa, causa dor, uma dor que dilacera suas entranhas. É como se estivessem lhe "abrindo com um facão" por dentro. A dor é tanta que você começa a sufocar. 

E ai, vem a sensação de morte. Uma sensação interna, louca. Eu morri. Por dentro. A pessoa não sabe mais o que é, nem quem é. Perdeu a referência ilusória. Essa morte é acompanhada de uma dor imensa. Uma vontade de desistir porque ela não consegue suportar a sua verdade. Ela não consegue ver em si forças para administrar suas descobertas. E é nesse momento que muita gente resolve "abandonar a vida" e, por não querer mais lutar, o jeito é não viver. 

Depois da crise, a sensação de morte a acompanha. No lugar do coração parece haver apenas um oco com a plaquinha indicativa "aqui jaz"!! Ao seu redor apenas destroços, cacos, estilhaços de si mesma. Mas, se a pessoa tiver a paciência de esperar a "crise" passar, ela aos poucos verá que dessa "destruição" começa a acontecer algo. Mesmo aparentemente sem forças para andar, ela consegue se erguer nas pernas. E olhando os destroços ao seu redor ela percebe que a dor ainda continua lá, mas sem tanta força, algo meio perene. Como um mar que depois da tempestade asserena, apesar de ainda estar "barrento", sujo. Ela começa a juntar alguns cacos para ver se ainda dá pra colar. 

E, que coisa interessante!
A pessoa percebe que no meio dos escombros (que ela ainda tem de recolher pra dar destino) começam a brotar algumas plantas. Uma grama aqui, um matinho ali, acola uma florzinha do campo. É a esperança brotando de novo. Algo vai nascendo no meio daqueles entulhos de uma forma bonita, colorida, viçosa. É a vida que ressurge!!! Agora de uma forma diferente. E ela percebe que "colar os cacos" não é o caminho. A ideia é pegar esses entulhos, jogá-los na máquina de reciclagem e deles tirar algo novo. 

Essa é a morte que dá vida quando ainda estamos em vida. E fatalmente nós passaremos, em algum momento da nossa existência por ela ou pela outra situação. E a pergunta que me faço é: é melhor morrer em vida ou renascer muitas vezes na mesma existência?!

Muitos vivem mortos e não sabem. Outros pensam que morreram, mas na verdade estão em pleno processo de renascimento. Assim é a vida.

*Como diria meu querido Rubem Alves: "Chegada e despedida, vida e morte - não são inimigas; são irmãs. (...) Sem a Morte, a Vida não existiria. A vida é, precisamente, uma eterna despedida ..."

Boa morte pra você!

*Do livro: "Do Universo à Jabuticaba", Editora Planeta

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