quinta-feira, 23 de julho de 2015

Deixai aos mortos enterrar os seus mortos.

Oi povo.
Tô por aqui de novo.

Desde domingo que tô no "faniquito" (agonia, aperreio, com vontade grande) de vir aqui e escrever. E o motivo é o tema da danada da palestra que fiz naquele dia lá no Janga, no Seara de Deus. O tema da dita cuja? "Deixai os mortos enterrar os seus mortos".

Vez em quando falo algo sobre esse tema por aqui.
Ele ficou me aparecendo direto no evangelho e saquei que era para eu me "debruçar" com mais atenção sobre o bendito. Lá fui eu e, de fato, tinha muito pra ver, pensar e refletir.

Quando Jesus falou isso para o rapaz que pediu para enterrar seus pais antes de segui-lo, mais uma vez Ele usava da linguagem figurada para deixar uma maravilhosa lição de vida para o moço e quem mais estivesse ao lado ouvindo. Essa frase poderia e pode ser interpretada de várias formas, em vários contextos, mas vou me ater a um mais especificamente.

Nós, seres humanos, temos por costume milenar "guardar lixos mentais" que podem ser os mais diversos, tais como, mágoas, medos, traumas, rancores, etc. Essas coisas geram uma espécie de "peso energético" em nossa mente e, consecutivamente, na contabilidade energética do nosso corpo. A gente, pelo condicionamento de carregar isso por tanto tempo, nem percebe mais a sua existência, mas ele não deixa de existir e sim, se transubstancia na sua forma de manifestação. Aqui um peso permanente no coração, ali um desleixo consigo mesmo, acolá um problema de saúde que não se sabe de onde veio; outrossim um comportamento repetitivo que a gente não percebe mais de tão automático que ele fica; mais adiante uma depressão.

Essas coisas imperceptíveis terminam por, de alguma forma, paralisar, ou atrasar, ou retardar a nossa vida em algum aspecto dela, normalmente, naquele ponto que a desencadeou. Sendo mais clara: se foi um trauma profissional, termino perdendo com o tempo o prazer pelo que fazia ou a confiança na minha competência; se foi no campo amoroso, passo a me distanciar de afetos como uma forma de autopunição. E por ai vai... Isso se dá, principalmente, porque nós somos educados a calar o que nos incomoda ou faz sofrer "pra não incomodar os outros", "para não demonstrar fraqueza" ou "porque é frescura". No caso dos homens então, ai é que a coisa fica complicada porque se conceituou que "eles não podem ser fracos", "que não sofrem", "que não têm medo de nada". 

O fato é que esse lixo passa a lhe acompanhar vida afora e vai interferindo na sua forma de ser. Isso se transforma num "defunto, daqueles ruins de carregar" dentro da gente. E nós queremos seguir em frente, andar, caminhar. Mas como?! Se o tempo todo tem algo nos puxando pra trás, nos fazendo olhar pra retaguarda, nos paralisando?! Ou ainda nos impedindo de dar um novo passo, andar a próxima milha? Como seguir a vida, recomeçar, se eu não enterro os mortos que eu mesmo teimo em manter vivos dentro de mim?! Quantos anos mais eu levarei para enterrá-los em definitivo?

Tem gente que perde uma encarnação inteira por causa disso: porque não quer enterrar o ente querido que faleceu; porque fica se culpando e auto punindo pelo erro que cometeu; porque carrega a mágoa do que aconteceu; e por ai vai. Perde assim a oportunidade de tocar a vida, de se permitir viver mais leve, refazer as possibilidades, recomeçar, tentar de novo. Acha mais cômodo estar preso, atado, amarrado. Claro!! Afinal, se seguir em frente e se sentir feliz de novo, com vida, com a possibilidade de renascer dentro de si mesmo, de se libertar, ele perde a desculpa que tinha para não tentar. E as vezes é mais cômodo passar a vida como o coitadinho que ficou marcado pelo sofrimento, pela perda, pela dor. 

E é isso o que muita gente vem fazendo com a sua vida: não enterra os seus mortos e fica andando como um cemitério ambulante. Num outro post que fiz aqui no blog, falei um pouco sobre essa coisa de que "morto bom é aquele que tá bem sepultado", como diria Rubem Alves. 

Pois bem. Desde que fiz essa palestra tenho pensado muito nisso e descobri que ando carregando "mais defuntos do que deveria", e que eles estão começando a pesar e incomodar. Isso significa que já tá na hora de colocar cada um deles em seus "devidos caixões e covas definitivas". Fácil? Não é. Tem alguns que vão incomodar um bocado para conseguir desalojar, porém o alívio que virá depois compensa a danação. Só de pensar na possível sensação de leveza e na possibilidade de ser mais feliz, já me sinto estimulada. 

Torço para que esse meu texto consiga "acordar" outras pessoas, pois percebo aqui e acolá como tem gente "zumbizando" por esse mundo de meu Deus!! Afinal, se estamos vivos é para viver a vida com a sabedoria que advém dela, aprendendo com as situações sobre nós mesmos. Ficar preso ao passado, aos erros, ao que aconteceu, se auto punindo é desmerecer a bondade Divina que nos concedeu a oportunidade de aqui voltar e recomeçar. É impedir o fluxo natural da vida.

Portanto, não seja injusto com Deus. Nem com você.
Vá recomeçar e ser feliz.

*Imagem de Christian Schloe

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